Descrição
Ad-Lishëqo’a — עַד לִשְׁקוֹעַ (A Pique / À Beira De Afundar)
Série – A Travessia do Silêncio
Em “Ad-Lishëqo’a”, Emanuel Barcas transforma a narrativa de Lucas 5:1–11 em uma meditação visual sobre o instante em que a existência toca seu próprio limite. A obra não ilustra o quase-afundamento da barca de Pedro: ela convoca o espectador a habitar esse limiar, onde o peso do real ameaça romper qualquer sustentação e, paradoxalmente, abre espaço para a irrupção do sagrado.
As texturas incisivas da espátula constroem uma superfície marcada por fricção, instabilidade e deslocamento. Tons cinéreos, brancos rasgados e profundidades quase abissais instauram uma atmosfera de tensão contínua, sugerindo a turbulência de um mar que é menos paisagem e mais consciência submetida à exaustão. A matéria se movimenta como se estivesse prestes a ceder — e é nessa vertigem que o chamado de Cristo ressoa, não como resposta, mas como reorientação.
Nada aqui é meramente representacional: o gesto pictórico opera como um dispositivo espiritual. O “afundar” torna-se metáfora do momento em que a autossuficiência implode e uma nova possibilidade se inaugura. Barcas inscreve, assim, uma teologia do limiar — o ponto em que o colapso não é derrota, mas lugar de revelação.
“Ad-Lishëqo’a” afirma que é precisamente quando a estrutura falha que o olhar aprende a ver de outro modo. À beira de submergir, a obra se ilumina.





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